Cavalo crioulo é um símbolo no Rio Grande do Sul

Animal é reconhecido por ser ágil e forte, bom no trabalho e no lazer.
Para o gaúcho, relação com a raça crioulo vai além da criação propriamente.

Se você pensa que cavalgar é trepar nos arreios, puxar as rédeas e calcar a espora no bicho… Está enganado.

Montar é como dançar. Sendo que um bailarino tem a generosidade de levar o outro nas costas. É um exercício de harmonia, de sincronia.

O gaúcho pratica isso. Gosta disso. Respeita e aplaude isso.

Você saber qual é o símbolo do seu estado? Pois, para um gaúcho, essa resposta é dada de pronto. O crioulo representa o Rio Grande do Sul.

Teve papel central na ocupação, na formação do estado. Somando já quase 500 anos de companheirismo, na guerra, no trabalho e no lazer.

Esta é uma história de amor. E, curiosamente, quem nos faz a primeira declaração ao crioulo não nasceu no Rio Grande do Sul. “É um prazer você andar nestes campos em um cavalo crioulo. É um cavalo maravilhoso”, diz Anna Sampaio Quinto de Camélis.

Anna Sampaio Quinto de Camélis conta que é uma carioca de origem gaúcha.  “Eu era modelo no Rio, e daí casei e fui morar em Nova York. Voltei e daí é que eu resolvi fazer agronomia”.

O pai de Anna, Luiz de Oliveira Sampaio, não mexia com fazenda. Era um cidadão do mundo. Aviador. Chegou a ser dublê do ator Clark Gable, em Hollywood. E foi um dos pilotos que levaram os irmãos Vilas Boas para o Xingu.

Mas o tetravô dela, Antonio Gonçalves Chaves, foi quem, no começo de 1.800, fundou a propriedade que lhe ficou de herança. Tem uma sede muito bonita. Cocheiras de estilo espanhol. Já serviu de cenário para filmes e novelas. Tem gado, plantações de grãos, mas o xodó da família sempre foi a criação de crioulo. “Eu diria que sem o crioulo eu não viv. Montar a cavalo é um prazer e montar a cavalo em um crioulo, é maior prazer ainda”, afirma Anna.

Aqui, o simples manejo da tropa, a condução de um campo para outro já é, por si, um espetáculo. Mas, o crioulo que a Anna cria hoje já não é do mesmo tipo de seis gerações atrás. Aliás, ainda em 1.820, o tetravô Antonio já preconizava a modernização da raça. O que só viria acontecer 150 anos depois, como você vai entender ao longo desta reportagem.

O crioulo é fruto de seleção natural, uma raça descrita como rústica e multifuncional. Rústica porque encara todo tipo de terreno e enfrenta qualquer intempérie.

Seja nos pampas, com as suas planícies sem fim, por onde corre o minuano; seja nos charcos ribeirinhos ou nas bordas da imensa Lagoa dos Patos. Seja no planalto, onde sopram os ventos uivantes da Serra Gaúcha, no verão de sol inclemente, de 40 graus ou abaixo de zero, no inverno tenebroso, na secura das pedras, no chão pantanoso… O crioulo é criatura valente. Atravessa a vida sobrando saúde.

É uma raça essencialmente de lida. Das que foram desenvolvidas no continente sul americano é a mais talhada para o serviço com gado.

Na lida do crioulo existe uma prática antiga. A tropa é conduzida ao curral e os animais são incentivados a entrar em ordem, a formar uma linha. Facilita a vistoria, a escolha e a pega daquele com que se vai trabalhar.

Na região da campanha gaúcha, no município de Dom Pedrito, quase divisa com o Uruguai, o início do turno diário é chamado de camperiada.

Donato Camargo de Oliveira, Tiago Barcelos Quadros e Aires Bernardo fazem o recorrido de campo, normalmente das sete às onze e, à tarde, da uma às cinco. As montarias vão sendo trocadas conforme a necessidade.

Com o cavalo crioulo, no sul do Brasil, floresceu na verdade, uma cultura crioula, que vai além da criação propriamente. Abrange a linguagem, a culinária, o vestuário. Quem não está acostumado com a etiqueta do gaúcho, ao ver um ginete, que é como se diz peão na região, pode até pensar que ele está indo para uma festa, uma apresentação especial. Mas,
não, o traje do dia a dia, de trabalho é composto de sete peças básicas.

Pra ficar todo pilchado, bem trajado, tem a bota campera, a calça folgada, que é a bombacha, o tirador de couro para proteger, a faca, o cinto, lenço, chapéu.

A paisagem rural gaúcha é marcada por construções, como o galpão crioulo, onde se arreia o cavalo, onde sem encilha. O uso mais comum na parte sul do país é o arreio sem cabeça, tipo cutiano. Na verdade, uma sela adaptada, com amarrio de trespasse no meio vazado,
é o tradicional bastos. Todo ginete tem seu bastos que é confortavelmente, acolchoado com pelegos de carneiros.

De cômodo dos aperos, das tralhas, o galpão crioulo ao longo do tempo ganhou uma função social: é hoje, também, o ponto de convívio na maioria das fazendas. Comunhão da família, dos amigos, dos costumes, do churrasco, da música.

Comunhão da cuia também. Chama-se “encilha” o ato de se ajeitar a erva para a primeira mateada do dia. No galpão Aires, Tiago e Donato, antes de montar, os ginetes tiram a cambona no fogo para uma roda de chimarrão.

É nessa hora que combinam quais as gauchadas do dia. Quer dizer: que serviços vão fazer.

Rotina dos rodeios: arrebanhar o gado para tarefas programadas de vacinação, mudanças de piquete, seleção conforme peso e idade. Verificação corporal. O olho treinado escrutina cada rês.

Nas éguas em que vão montados, o laço fica preso na sela e ela aguarda tranquilamente. A outra, parece até que está fiscalizando o serviço.

Aires é do tipo que sempre cumpriu a vida em lombo de cavalo. E se diz testemunha de uma mudança importante nesses campos: a tropa
mudou de comportamento, e o próprio relacionamento dos peões melhorou muito desde que começou a trabalhar na propriedade Ginkgo Biloba, da família de Eduardo Duval.

“Meu avô comprou estes campos na década de 1.920”, conta. Duval é formado em agronomia, professor universitário, pesquisador de etologia, do comportamento animal. Adepto da não violência.

“O pessoal não acreditava que o animal poderia ser domado racionalmente e o usado nos trabalhos da estancia”, diz Duval.
“A tradicional é uma doma estúpida. Com a doma de hoje a gente conquista o cavalo”, diz Aires.

“Aqui nós só domamos na racional. Esses cavalos ficam absolutamente mansos, confiáveis, e é um cavalo para qualquer pessoa andar”, explica Duval.

Não foi só a doma que mudou nesses anos. O próprio crioulo evoluiu muito nas últimas décadas. Continua forte, porém mais bonito. E além da lida no campo, cresce a procura da raça para cavalgadas. Tem até seresta no lombo do crioulo!

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